terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Escola: vilã de algumas histórias de dificuldades de aprendizagem
Por: Simaia Sampaio

Carraher(2003, p. 25) nos diz que “mais importante do que fornecer a resposta correta à criança é fornecermos oportunidades para pensar e raciocinar”. Partindo desta reflexão observamos que a grande parte das escolas atua como vilã neste sentido, exigindo respostas corretas sem avaliar porque o aluno deu aquela resposta e não a que ele esperava.

Quantas vezes o aluno erra na sua resposta sem que a professora note que ele estava de fato pensando, muitas vezes, até pensando bem. Não devemos supor que a resposta errada indica que a criança não estava pensando. Precisamos conhecer como a criança estava pensando. O que a leva a chegar a conclusões diferentes das nossas? Como ela está representando as idéias na cabeça dela? (CARRAHER, 2002, p. 18)

A inadequação de conteúdos é um grande problema nas escolas. Muitas vezes o professor está trabalhando num nível cognitivo superior ao do aluno. Adequar-se ao nível cognitivo do sujeito é imprescindível para que este obtenha uma boa aprendizagem, pois “devemos começar onde a criança se encontra e nos termos dela” (Id. Ibid., 2002, p. 19).

O problema começa desde a alfabetização quando,

O desrespeito ao ritmo de construção da criança no ler e escrever pode criar uma dificuldade que se avoluma como “bola de neve”, podendo chegar a estancar o seu processo de verdadeira alfabetização. Ela começa a apelar exclusivamente para a memória e, a partir de um certo ponto, passa a não caminhar mais, ou mesmo a se recusar a cumprir qualquer tarefa relacionada à leitura e à escrita”. “...a grande ansiedade passa a bloquear a aprendizagem, em função do despreparo da escola em lidar com o desencontro entre o ritmo de algumas crianças e o ritmo geral da turma”. (WEISS, 2003, p. 96).

Não são poucos os professores que exigem das crianças, que ainda se encontram no estágio operatório concreto, respostas corretas para problemas matemáticos complexos próprios para o estágio formal. E o que é mais grave,

...há professores que contribuem para a construção de bloqueios e condutas aversivas com a Matemática, pelo seu discurso autoritário e ameaçador, exigências absurdas, criação de clima geral de insegurança em sala de aula, contribuindo para a formação de baixo autoconceito. (Id. Ibid., 2003, p. 100).

Carraher nos fala que aprender a pensar sobre assuntos é mais importante que aprender fatos sobre os mesmos assuntos. Que o ensino e a aprendizagem deverão ser vistos como um convite à exploração e à descoberta ao invés de transmissão de informações e de técnicas (2002, p. 19).

Pichon Rivière nos fala que o mecanismo fundamental em todo grupo é a interação que se dá através de diferentes vias de comunicação. Fazendo uma analogia de suas palavras com a relação de comunicação entre professor e aluno, podemos afirmar que este canal de comunicação deve existir em todo grupo inclusive no grupo escolar onde o emissor é o professor e os receptores são os alunos. Esta comunicação encontra-se defasada, na maioria das vezes, na qual parecem falar línguas diferentes havendo uma dificuldade de entendimento. E porque isto acontece?

Segundo Pichon Rivière para o emissor emitir uma mensagem ele tem que codificá-la. Esta mensagem irá circular por um canal de comunicação e irá chegar até o receptor que irá decodificá-lo para pode emitir uma resposta que encerre este círculo, ou seja, uma compreensão positiva da mensagem. Porém é necessário que exista um código em comum, do contrário, não poderão entender-se. Na comunicação não devermos levar em conta somente o conteúdo da mensagem, mas também como e quem passou a mensagem. Quando ambos os elementos entram em contradição, se configura um mal-entendido dentro do grupo e é aí onde aparecem as perturbações na comunicação.

Muitas crianças adquirem conhecimentos desarticulados nas escolas, ou seja, informações decoradas, sem conexão com a vida real. A realidade é que os professores não fazem uma ponte do que estão falando com algo do cotidiano da criança, algo que ela conhece e que dali possa fazer uma associação. Nas escolas públicas isto é ainda mais grave quando crianças com várias repetências chegam a ter suspeita de retardo mental e quando chegam a um consultório psicopedagógico são diagnosticadas como crianças normais.

A escola, porém não deve ser a única responsável pelas dificuldades escolares dos alunos. Alguns alunos já chegam à escola com déficits, com níveis de maturidade inferiores ao da idade cronológica. Como comenta Barbosa:

Muitos trazem uma bagagem cultural, social, intelectual, neurológica muito defasada em relação aos seus companheiros e isto se constitui em desvantagens às vezes cruciais para a aprendizagem da leitura, escrita e cálculo. (OLIVEIRA apud OLIVEIRA, 2002, p. 186).

Diante disto cabe ao professor observar o desenvolvimento do aluno e, detectando alguma dificuldade, encaminhar a um psicopedagogo para fazer o diagnóstico.

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